terça-feira, 20 de julho de 2010

Blitzkrieg: Escape from Stalag 69 (2008)


Elenco: Tatyana Kot (Natasha), Carles Esser (Helmut Shultz), Edward Yankus (Jack Jones)

Direção: Keith J. Crocker

Sinopse: A rotina no Stalag 69, campo comandado pelo cruel Helmutz Schultz, que usa os prisioneiros para os seus experimentos.





Decepção, decepção, decepção...

Bem, amigo leitor, me deixe fazer uma pergunta. Digamos que você seja fã de um subgênero cinematográfico composto por filmes baratos, curtos e apelativos. Então, um belo dia, você decide fazer seu próprio filme no gênero. Você consegue um orçamento de 10.000 dólares, algumas armas falsas, uma boa locação e alguns atores independentes para o seu projeto. Agora, responda, que tipo de filme você faria?

a) um filme pequeno e auto-referencial, cheio de citações a um monte de outras produções do gênero e humor baseado na pobreza de recursos.
b) um filme de mais de duas horas, com mais de quinze subtramas que não levam a lugar nenhum, humor proposital e uma trilha sonora que toca o tempo todo.


Keith J. Crocker escolheu "b".

E aí temos Blitzkrieg: Escape from Stalag 69, a decepcionante retomada do cinema nazi-exploitation, um filme feito por gente que não sabia o que estava fazendo. Ruim demais, mas não ao ponto de ficar bom.

Para começar: o único nazi-exploitation que eu me lembro de ter passado da marca das duas horas é Salon Kitty, e esta era uma produção tão luxuosa e bem feita que muitos não gostam de encaixá-la no gênero. E convenhamos, se você vai fazer um filme de baixo orçamento de qualquer tipo, e passar de uma hora e quarenta, você está realmente dando um passo muito maior do que a sua perna.

A sensação é a de que Crocker, no lugar de ser Tarantino em À Prova de Morte, tentou ser Quentin Tarantino em Kill Bill. Ou seja ao invés de emular o espírito dos clássicos do gênero e apresentar um filme perfeitamente idêntico a eles, resolveu (e aqui roubo as palavras de Leandro Caraça) "transcendê-los, ir por caminhos nunca percorridos e ao menos por um momento, devolver a importância que os mesmos tiveram em determinada época".

A diferença: Tarantino é o maior cineasta vivo. Já Crocker... bem, Crocker não é.

O filme começa com Helmut Schultz (Charles Esser, que não sabe a diferença entre fazer sotaque alemão e imitar Greta Garbo com nariz entupido), um criminoso de guerra que é localizado por caçadores de nazistas na Argentina, dez anos após a guerra. Ele consegue escapar e vai até uma igreja, onde narra a sua história para um padre (Paul Richichi).

Antes de continuar, algumas coisas precisam ser ditas sobre Helmut Schultz. Uma é que ele é tão gordo que nunca, em momento algum do filme, ele abotoa a sua farda de comandante. Outra é que, de acordo com o diretor/roteirista/ator/produtor Crocker, o personagem teria sido "inspirado em Charles Manson". Só a mãe deles poderia dizer a diferença...



Então, ele narra a trama em flashback. E é aí que entram as mil subtramas que eu mencionei antes. Apenas uma dela mantém qualquer tipo de interesse: é aquela estrelada por Natasha (Tatyana Kot), uma rebelde soviética, que seduz e castra um soldado nazista na banheira (citação explícita a A Vingança de Jenifer), e foge peladinha com uma metralhadora matando quantos nazistas pode até ser capturada e torturada no Stalag 69.

E além disso temos muitos personagens sem propósito ou motivação. Há o soldado americano metido a herói. Há a irmã de Helmut Schultz, uma Ilsa dos pobres. Há o ajudante do comandante. Há o inspetor. Há a stripper. Há a namorada do herói. Há a torturadora. Há o mutante. E por aí vai...

Eu poderia tentar destrinchar cada um destes personagens aqui, mas acredite: a lista acima resume perfeitamente toda a personalidade e razão de ser de cada um dos citados. Alguém pode dizer que o nazi-exploitation nunca primou por personagens complexos, mas é mentira. Mesmo nas produções mais mirradas do gênero, como Beast in Heat, havia algum tentativa de adicionar um elemento humano, por idiota que fosse. Mas não em Blitzkrieg. Mesmo a personagem de Tatyana Kot tem pouca motivação, e isso que ela é, no consenso geral, a única coisa que salva o filme. Aliás, o grande erro do projeto é fazer uma comédia assumida, ao contrário de tentar arrancar risadas pelo fator trash. Não sei quanto a vocês, mas o que me fazia rir em muitos nazi-exploitations era o fato de que os realizadores pareciam realmente acreditar que estavam mostrando os "horrores da guerra", e não seria o mesmo se eles jogassem piadas na sua cara o tempo todo.

O filme tem uma dose elevada de gore, e os efeitos não são ruins. Há duas cenas de castração, tortura e outros aperitivos para quem gosta de sangreira. Mas mesmo o banho de sangue tem seus momentos ridículos, como o nazista traidor que é afogado num barril de vinho. Sabe aquela água digital que aparece na Turma do Didi quando não querem molhar os atores? Se você não engole este efeito nem num programa deste nível, imagine num suposto filme de guerra...

Os erros se extendem até o título (não há nenhuma blitzkrieg, em momento algum), passando pelos diálogos longos e entediantes, e o péssimo uso da trilha sonora. Acredite, a última meia hora é marcada por uma guitarra enjoativa que não para nunca.

Falta, acima de tudo, citações aos outros filmes do gênero. O máximo que temos é um mutante que eu acho ser uma citação a Beast in Heat. Normalmente sou contra ao excesso de citações em filmes independetes, mas se há um filme em que isso era necessário, este filme é Blitzkrieg, uma retomada que deixa saudades da podreira daquelas velhas produções de Bruno Mattei e Cesare Canevari.


Ponto alto: a violência é marcante e os efeitos são bons para o nível da produção.
Ponto baixo: Helmut Schultz é o vilão mais fajuto no gênero desde Bob Cresse em Love Camp 7, e lá se bão quase 50 anos...

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