domingo, 2 de janeiro de 2011

Salò, ou os 120 dias de Sodoma (1975)






Como prometi nos comentários de Love Camp 7, aqui está o artigo sobre o meu filme favorito de todos os tempos. Quem me conhece bem sabe que para mim Pier Paolo Pasolini está no topo da lista dos maiores diretores da história, e que considero Salò (junto com o maravilhoso Mamma Roma) o ponto alto da carreira deste cineasta único. Já devo ter assistido a esta obra-prima umas sete vezes, e a cada descubro alguma coisa que não vi antes.

Este filme também deu foi um novo rumo à minha "carreira" de cinéfilo. Foi através dele que fui introduzido não apenas a Pasolini, mas a uma dezena de atores e técnicos que depois acabaram entrando para o meu catálogo de ídolos. Pessoas como Paolo Bonacelli, Hèlene Sugere, Marco Bellochio, Renata Moar, Antiniska Nemour, Laura Betti... e, é claro, o Marquês de Sade. Foi através dele que entrei em contato mais íntimo com o cinema italiano da época, o melhor do mundo.

Salò, ou os 120 dias de Sodoma é, também um exemplo único de adaptação de uma obra literária para o cinema. Claro que esta não foi a única vez que uma versão cinematográfica de um livro resolveu adaptar o seu cenário e cronologia para uma época e local diferente do original. Mas o que torna realmente especial esta transferência do livro do Marquês de Sade (que originalmente se passava na França pré-Revolução) para a Itália fascista é a acuracidade com que Pasolini encaixou a trama do livro na história da Segunda Guerra.

Algumas explicações para quem não captou bulhufas do que eu acabei de dizer. Em 1785, Donatien Alphonse François de Sade, o maior escritor de literatura erótica de todos os tempos, estava preso na Bastilha. De posse de um enorme rolo de papel e um lápis, ele se pôs a redigir uma obra literária que representasse um inferno maior do que aquele em que se encontrava preso. Em 37 dias na Bastilha, Sade compôs Os 120 Dias de Sodoma, ou a Escola da Libertinagem. No 38º, a Bastilha foi tomada, e Sade foi arrancado de sua cela. Antes de fugir, escondeu entre as frinchas da cela o manuscrito inacabado de sua obra-prima, e morreu, anos depois, crendo que estava perdida para sempre.

Mal sabia ele que o manuscrito foi encontrado, e vendido para uma certa família Villeneuve-Trans, que conservou o rolo por décadas; o livro chegou a ser publicado apenas em 1904, numa edição exclusiva para psiquiatras, e mais tarde para o público em geral.

Nesta sua obra, Sade criou quatro dos personagens mais grotescos da literatura mundial, os quatro libertinos conhecidos como "os amigos". São eles o Duque de Blangis, o Presidente Curval, o financista Durcet e o Bispo, este último irmão do Duque. Estes quatro senhores de posses e conhecimento dedicavam as suas vidas às orgias mais grotescas, e o menos perverso entre eles faria o diabo corar.

Estes quatro perversos decidiram fazer a maior orgia de todos os tempos, e para isto reuniram uma comitiva composta de 8 rapazes, 8 moças, 4 putas velhas, 4 narradoras, 8 fodedores, 4 criadas, 6 cozinheiras e suas 4 filhas casadas entre si. Com este grupo, se dirigiram a um castelo isolado, no topo de uma montanha, circundado de muralhas e florestas perigosíssimas, e completamente selado, para que ninguém dele saísse durante os 120 dias que deveriam tomar a orgia.

E assim, em meio às narrativas libidinosas das quatro narradoras, seguidas por todo tipo de tortura e pervesão sexual, os quatro amigos passaram estes 120 dias, ao fim dos quais, o castelo, transbordando de sangue, esperma e merda, foi abandonado.

Adaptar uma obra assim grotesca para o cinema não seria tarefa fácil. Antes de Pasolini, Buñuel havia retratado o fim da orgia em um dos segmentos de A Idade do Ouro (você pode ver este segmento brilhante abaixo). Mas nem mesmo Buñuel havia ousado mostrar o horror que se sucedeu durante os 120 dias no castelo, exibindo apenas a ressaca da orgia, além de dar uma genial cutucada na fé cristã.



E o que Pasolini fez? Não apenas se dispôs a retratar o horror do texto de Sade, mas encaixou o texto em uma época histórica completamente diferente. Assim, o filme toma lugar no norte da Itália, mais especificamente na cidade de Salò, às margens do Lago di Garda. Lá, os quatro libertinos (agora identificados apenas por seus títulos) capturam as suas presas e as carregam, junto com a comitiva, para um imponente castelo na vila de Mazzaborto, onde terá lugar a orgia.

É preciso um pouco de dever de casa para se entender precisamente a genialidade disso tudo. Em fins de 44, o governo de Benito Mussolini havia sido derrotado pelos aliados, no auge da Segunda Guerra Mundial. Hitler então deu um útlimato ao líder italiano: ou criava uma nova república nazi-fascista ou teria a Alemanha como inimiga. Mussolini, assim, fugiu para Salò, onde criou uma nova república que durou poucos meses.

E assim, os quatro libertinos, mais do que simples celerados, se tornaram, na visão de Pasolini, membros do partido fascista. A trama de Sade se encaixou com perfeição naquele momento histórico específico, de forma que se pode até deduzir o que acontece após o fim da trama (dica: preste atenção no barulho que se escuta quando a Signora Maggi se prepara para contar sua história).

Levando sua comitiva de moças e rapazes na flor da idade para o castelo, os libertinos se põem a praticar torturas e perversões de forma extremamente cauculista e matemática. Não se trata apenas de praticar perversões, mas sim de contabilizá-las, racionalizá-las, como se estivessem tratando burocraticamente de um trabalho qualquer. Na minha modesta opinião, um dos pontos chaves desta obra de Pasolini/Sade, é, de fato, a burocracia. Não parece, em momento algum, que os libertinos estão realmente extraindo algum prazer daquilo que fazem; parece, sim, que se dispõem a fazê-lo simplesmente para seguir as regras pré-estabelecidas no seu livro, cumprir sua cota de perversões, registrá-las e arquivá-las.

A segunda peça chave do filme é a repressão do amor. Pode parecer piegas, mas não é. Você tem a representação de casamentos, você tem a representação da noite de núpcias e, por duas vezes, você tem sexo com algum tipo de sentimento. E este é punido da forma mais severa possível. Aliás, é apenas quando vêem o soldado Enzo na cama com a belíssima escrava Ines, que os quatro libertinos esquecem suas regras, e cometem assassinato por impulso, fora do que foi estabelecido no seu livro-razão.

E o terceiro ponto capital são as vítimas e sua falta de reação a tudo o que ocorre. É incrível a sua passividade, a sua submissão a estes quatro poderosos. Eles fazem o que lhes é dito para fazer, sem nenhuma demonstração de queixa. Uma metáfora, sem dúvida, para a forma o povo italiano recebeu a instalação do governo fascista em seu país.

Não quero perder tempo aqui falando sobre o efeito de choque do filme, pois isto já foi explorado ao máximo em todas as outras críticas. É, sim, uma obra brutal, chocante e grotesca. Mas também tem muito mais qualidades além disso. Não me vejo, tampouco, na obrigação de contabilizar todas as infinitas facetas do filme neste texto, seja com relação ao choque, seja nas suas mensagens escondidas. Deixo a cada um a sua própria interpretação deste inventário de horrores e discursos que Sade e Pasolini nos oferecem.

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