
A figura de Josef Mengele ainda hoje é temida como a de um dos mais crueis criminosos de guerra nazistas. Conhecido por seus experimentos macabros usando judeus como cobaias no campo de Birkenau, Mengele era a síntese de todo o horror do Holocausto, e foi a inspiração de dezenas e dezenas de filmes. Tanto em produções classe A como em diversos exemplares do nazi-exploitation vimos variações do infame médico, como a Ilsa de Dyanne Thorne ou o Dr. Heinrich von Strasser de Werewolf Women of the SS.
Mas nenhum outro filme sobre sua vida alcançou o prestígio de Os Meninos do Brasil (1978) que, mesmo se tratando de uma obra de ficção que usa pessoas reais como personagens, se tornou mais famoso do que qualquer outro filme, fictício ou documentário, sobre Mengele.

Baseado no livro de Ira Levin (autor de O Bebê de Rosemary), o filme dirigido por Franklin J. Schaffer (diretor de clássicos como Patton, Papillon e O Planeta dos Macacos) se mostra uma adaptação bem fiel, embora muitos momentos (como a grande revelação da trama) percam um pouco da força do texto original. A escolha para o papel de Mengele foi no mínimo inusitada: Gregory Peck, astro conhecido por papeis carregados de bom mocismo, faz um vilão cínico e cruel, que, segundo a sua própria definição, foi o único personagem da sua carreira com o qual ninguém simpatizava. Já para o papel do heroi a escolha também foi curiosa: Laurence Olivier, que apenas dois anos antes havia ocupado, no clássico Maratona da Morte, os sapatos do Dr. Christian Szell, um personagem criado à imagem e semelhança do próprio Dr. Mengele. É muito interessante ver Olivier (ótimo como sempre) interpretar justamente o outro lado da moeda, como um judeu caçador de criminosos nazistas.
O filme abre no Paraguai (no livro a ação começava em São Paulo), onde o jovem caçador de nazistas Barry Kohler (Steve Guttenberg, antes da fama em Loucademia de Polícia) segue os traços de criminosos de guerra escondidos. Ele implanta um microfone no covil dos nazis, e consegue gravar parte da sua reunião. Nela, o Dr. Mengele expõe um misterioso plano aos seus asseclas: pelos dois anos e meio seguintes, eles deveram viajar pelo mundo e matar 94 homens de 65 anos especificados numa lista.

Mas antes de poder entender qual o propósito por trás daquilo, Kohler é descoberto, e precisa fugir. Do seu hotel, ele liga para Ezra Lieberman (Olivier), um veterano caçador de nazistas outrora famoso mas agora decadente, e lhe faz escutar a gravação. Mas antes que a fita chegue ao final, Kohler é descoberto e assassinado por Mengele e seus homens.
Lieberman a princípio não dá muita bola para o telefonema, mas começa a investigar o caso mais a fundo depois que Kohler desaparece completamente do mapa. Inicialmente sozinho, e mais tarde com a ajuda de um amigo do falecido, ele entra cada vez mais fundo no plano de Mengele, e acaba chegando a uma revelação que pode mudar o destino de toda a humanidade.
Não vou cair aqui na besteira que toda crítica deste filme cai, e contar a CHOCANTE revelação do plano de Mengele. Aliás, fique de sobreaviso: se este é o primeiro texto que você lê sobre o filme, procure não ler mais nada antes de assisti-lo. Infelizmente quase ninguém resiste a soltar spoilers de Os Meninos do Brasil, e este filme é um daqueles casos em que quanto menos você souber sobre a trama, melhor.
Além das grandes interpretações de Olivier e Peck, o filme tem performances competentes de James Mason como um coronel nazista e da ótima Uta Hagen, numa breve mas decisiva cena. Há também uma ponta de Bruno Ganz, aquele mesmo que décadas mais tarde ofereceria a interpretação definitiva de Adolph Hitler no soberbo A Queda!. Somam-se a tudo isso momentos poderosos como a pertubardora "cena dos olhos azuis" (você vai saber quando chegar!), uma cena de assassinato na neve na Suíça e a ambígua tomada final, que deixa no ar a questão de até que ponto se pode intervir no destino da humanidade derramando o sangue de inocentes. E, ao final de tudo, pergunte a si mesmo: ele realmente deveria ter queimado aquela lista?

PS: o banner aí em cima foi criado pelo grande Ronald Perrone do Dementia 13
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