
Contar uma história do ponto de vista de determinado personagem pode ser um desafio. Não se trata apenas de apontar a câmera para quele protagonista e contar a sua história: é necessário fazer o expectador vivenciar a sua transformação enquanto a história segue. Fazer a audiência sentir as mesmas emoções de um personagem e a sua mudança de personalidade, ao mesmo tempo que o tal personagem as sente pode ser decisivo no processo de criar interesse pela narrativa.
E poucos filmes o fizeram tão bem quanto Mata Hari, que conta a história da misteriosa espiã da Primeira Guerra Mundial, imortalizada pela performance de Greta Garbo. Garbo interpreta o personagem a princípio como um mulher fria e sensual que leva os homens à loucura, ao mesmo tempo em que trabalha para a resistência alemã. Mas ela sofre uma mudança extrema no decorrer do filme, que tranforma aquela femme fatale clichê em uma pessoa de carne e osso.
Mata Hari é uma agente dupla que vive na França sob o disfarce de uma dançarina exótica. Ela recebe uma nova missão quando o jovem piloto russo Alexis Rossanoff (Ramon Novarr) chega no país trazendo consigo uma típica carta MacGuffin, neste caso um documento que pode decidir os rumos da guerra. A missão de Hari é seduzir o piloto e roubar o documento, e parece ser mais fácil do que o planejado, quando descobre que Rossanoff tem uma intensa obsessão por ela, depois de vê-la dançando várias vezes. Hari prossegue na sua missão, mas não podia prever que também se apaixonaria por ele.
Botando de lado o plot de espionagem, o filme é um impressionante estudo de personagem, por causa do romance entre Hari e Rosanoff. O que o põe acima de muitos filmes feitos na época é a forma que o espectador sente o caleidoscópio de emoções que a personagem de Garbo sente pelo piloto.

A cena que define tudo é quando Hari vai até o apartamento de Rossanoff para seduzi-lo e roubar o MacGuffin. Até aquele ponto, o personagem de Novarro era um completo pulha, não tendo nenhuma outra característica além de estar apaixonado. Ele era apenas aquele cara irritante, submisso e carente que passava o tempo todo fazendo declarações de amor cafonas.
Mas então, quando chegam ao seu apartamento, Rossanoff mostra a Hari um pequeno oratório para Nossa Senhora que sua mãe lhe presenteou, recomendando que sempre mantivesse uma vela acesa em frente a ele, para espantar os maus espíritos. Então, Hari lhe pede para apagar a vela, para que possam fazer amor. A adoração que ele sente pela dançarina então enontra um limite: ela estava pedindo demais. A princípio, ele não pode aceitar, mas ela insiste tnato que ele, a contragosto, sopra a vela.
No dia seguinte, Mata acorda antes dele, deixa um bilhete, rouba o MacGuffin e se prepara para sair. Mas antes de cruzar a porta, ela vê o oratório, acende um fósforo e acende a vela.
Nestas puocas cenas, em uma forma extremamente sutil, a audieência vê esta mudança na forma em que Hari encara Rossanoff. Porque o que torna um personagem simpático não são grandes ideais ou conquistas, mas aquelas pequenas coisas que fazem dele humano. Desta forma, Rossanoff deixa de ser aquele tiete submisso e bidimensional e se torna um personagem muito simpático. Ele não é apenas aquele fanático por Mata Hari, ele tem outras coisas importantes na sua vida. E a forma como ele acende aquela vela mostra a forma como ela passa a gostar dele após descobrir isso.
Nós sentimos esta mudança, e subitamente, passamos a gostar de Rossanoff. Fazer o público gostar de um personagem pode ser fácil. Fazer o mesmo público odiar um personagem é mais fácil ainda. Mas manipular a audiência para fzê-los mudar o ponto de vista sobre um personagem é um toque de brilhantismo. A froma como o filme faz o público se "apaixonar" por aquele cara que todo mundo odiava, e, ainda por cima, no exato momento em que Garbo se apaixona por ele, é o que faz tão poderoso este gesto simples de acender uma vela.
0 insurreições:
Postar um comentário