


É curioso quando você assiste a uma cena em que um grupo de nazistas pratica uma orgia num quarto luxuoso, com direito a uma tacada de bilhar no meio das pernas de uma moça, enquanto um dos oficiais filma tudo, e a primeira coisa que você pensa é "Eu já vi isso antes." E não, eu não quero dizer "eu já vi muitas cenas assim antes", mas sim "eu já vi esta exata mesma cena em um outro filme".
Pois é, amigos, num post anterior eu citei uma cena em A Cat in the Brain, de Lucio Fulci, que continha diversos elementos nazi-exploitation. Foi só agora que eu fui checar este filme anterior do maestro, chamado Ghosts of Sodom, e percebi que aquela sequência é composta de cenas reaproveitadas, encaixadas em A Cat in the Brain numa sequência de sonho.
Num artifício que lembra muito Delírios de um Anormal, Fulci, ao compor sua obra-prima A Cat in the Brain, reutilizou filmagens de muitos dos filmes menores que fez no fim dos anos 80/começo dos anos 90. Um deles foi Sodom's Ghost, um estranho filme de horror/nazi-exploitation, que combina elementos de A Catedral, Garotas da SS, Terror nas Trevas e, pasme, até de O Anjo Exterminador, de Buñuel!
A mistura é indigesta, e o resultado é um filme tosco e indigno do mestre Fulci. Ele já estava numa decadência tremenda, longe da época em que fazia filmaços como La Pretora e A Casa do Cemitério, e este terrorzinho barato mal serve para tampar o buraco do dente. Convencional, estúpido e pouco sangrento, ele acaba servindo mesmo só pela curiosidade de conhecer um pouco mais sobre A Cat in the Brain, o filme que deu a Fulci um último suspiro de genialidade.
O filme começa já com as tais cenas de orgia. Os oficiais se agarram às moças de cinta liga, enchem a cara, jogam sinuca e cheiram cocaína, enquanto um jovem oficial chamado Willie (Robert Egon, que esteve naquele filme do Capitão América de Albert Pyun, num papel creditado como "O Jovem Italiano Perfeito") filma tudo. Na cena seguinte, em uma outra orgia um grupo de nazis assiste às filmagens (um pornô nazista? Nunca vi um desses!), tão doidões de bebida e pó que começam a dançar e trepar tão rápido que morrem de exaustão, enquanto imagens de arquivo mostram o fim da guerra e a derrota alemã.
Corta para várias décadas depois, onde um grupo de amigos está fazendo uma viagem de carro com destino a Paris. Eles são três moças e três rapazes tão mal desenvolvidos que nem vale a pena citá-los, exceto talvez por Marie (a delícia Jessica Moore), uma garota com tendências lésbicas latentes, que passa o filme todo alisando as outras garotas do grupo.
Uma falha mecânica faz com que eles tenham que descer do carro, e acabam justamente no casarão onde ocorreram as orgias vistas no início. Eles decidem entrar, se acomodar, comer e dormir por lá mesmo, não estranhando nem um pouco o fato de que a casa está toda arrumada, a mesa posta e as camas ajeitadas, o que, com certeza, quer dizer que o lugar em dono.
Numa série de idas e vindas que vou lhes poupar, eles saem da casa e retornam duas vezes, até se verem presos lá dentro, com as janelas e portas trancadas e invioláveis. Eles começam a ser assombrados por fantasmas que se utilizam de modos bem rebuscados para atacá-los.
A primeira aparição sobrenatural de Willie é para Annie (Teresa Razzaudi), quando ele a seduz com requintes sadomasoquistas. Depois, ele aparece para Marc (Alan Johnson, de Slumber Party Massacre), e lhe propõe um jogo de roleta russa. Se Marc vencer, ele pode dividir a cama com ninguém menos que Zora Kerova (a loirinha de Cannibal Ferox, Antropophagus e New York Ripper). Não vou contar os resultados desta partida, mas posso adiantar que o personagem de Zora se revela um súcubo (vampira sexual) e que a recompensa de Marc não vale tanto a pena assim...
Conforme a história segue, você começa a perceber que os fantasmas não são tão maus assim. Na verdade, eles preferem seduzir as suas vítimas a matá-las. Em alguns pontos nem ao menos tentam assustar ninguém, apenas entram, batem um papo e vão embora.
Já a cena final poderia ser muito decepcionante, se houvesse ainda alguma espectativa por parte do espectador. Só que até aí, já estamos cansados e frustrados, e mesmo o final feliz forçado é recebido com alívio pelo fato de o filme ter finalmente acabado. No fim das contas, a única coisa que realmente deixa alguma impressão é aquela cena inicial. Parece que o próprio Fulci sabia disso, já que decidiu reutilizá-la depois. Minha dica: fique com A Cat in the Brain. Não só você vê um filmaço, como tem acesso às únicas cenas boas desta obra menor de um dos maiores diretores de gênero da Itália.
A premissa é bem interessante. "Casa assombrada por fantasmas de nazistas", pena que o filme fica na promessa.
ResponderExcluirPelo que eu li a respeito o filme é um horror(não resisti o trocadilho).