


Eu odeio andar de moto. Sério. Nem de carro eu gosto muito. Eu nunca dirigi nada maior do que um carrinho de bate-bate no parque de diversões. Sabe quando está desabando uma tempestade e você vê um cara solitário molhado até os ossos esperando no ponto de ônibus? Pois é, aquele sou eu. Então, vocês podem imaginar que eu não me animei muito para ver este filme chamado Hell's Bloody Devils, dirigido por Al Adamson entre 1967 e 1970. Afinal de contas, o trailer do filme prometia um legítimo bike movie, em que um grupo de motoqueiros neo-nazistas espalhavam o terror pelas estradas dos EUA.
Enfim, eu decidi encarar o tal filme, e fiquei realmente sem palavras. Porque o que eu vi simplesmente não tinha conexão nenhuma com aquele preview. Ao invés da mistura de Werewolves on Wheels com She Wolves of the SS que eu esperava, me vi diante de uma imitação vagabundíssima de James Bond. Toda a trama com a tal gangue de motoqueiros é absolutamente descartável, e tão deslocada quanto Mel Gibson fazendo Hamlet. Eu não me importaria tanto, uma vez que trailers de filmes exploitation normalmente prometem mais do que deviam, mas o problema é que os produtores fizeram questão de começar o filme justamente mostrando o tal trailer. Ou seja, eles queriam ter certeza de que frustariam as nossas expectativas de um jeito ou de outro.
A verdade é que o filme inicialmente não tinha nada a ver com motoqueiros. Originalmente foi filmado em 1967 como uma aventura de espionagem chamada "Operation M", mas foi lançado apenas em 1970, depois que Adamson filmou a tal subtrama envolvendo motoqueiros nazistas. Então o roteiro, que já era uma bagunça, se tornou um verdadeiro pesadelo, numa mistura de nazi-exploitation, bike movie, suspense, policial, espionagem, comédia erótica, romance e o diabo a quatro. E, para piorar, nenhum destes elementos é aproveitado devidamente, o que o acaba tornando frustrante para qualquer tipo de público.
O herói da trama é Mark Adams (John Gabriel), um agente secreto que está atrás de uma organização nazista de falsificação de dinheiro, chefiada pelo Conde von Delberg (Kent Taylor), um criminoso de guerra nazista. Atrás dele também está Carol Bechtal (Vicki Volante) uma jovem judia que quer vingar a morte de sua família em Auschwitz. Ela se infiltra na organização, e é o ponto de contato entre von Delberg e uma quadrilha de motoqueiros neo-nazistas, sustentada pelo conde.
De algum forma, a tal quadrilha deveria ajudar von Delberg a ressucitar o nazismo. Como? Pergunte a Al Adamson. Sinceramente, não consigo pensar como diabos três motoqueiros de meia idade poderiam ajudar a criação do IV Reich, quando tudo o que fazem é viajar de cidade em cidade espancando algum caroneiro ocasional. Cheguei a imaginar que roubavam dinheiro para manter o partido, mas logo ficou bem claro que eles na verdade recebem dinheiro do partido. Adansom, pressionado para incluir motoqueiros no filme, depois do sucesso de Sem Destino, simplesmente não conseguiu pensar em uma forma de integrá-los devidamente, e acaba que as poucas cenas envolvendo os tais capetas sanguinolentos do inferno são ínfimas, sem relação com nada, e têm uma conclusão rápida e (novamente essa palavra) frustrante.
Não dá para resumir as inúmeras subtramas sem sentido do filme, mas existem algumas participações especiais que vale a pena mencionar. Uma delas é a aparição do Coronel Sanders, dono e garoto propaganda da famosa rede de restuarantes do Kentucky Fried Chicken, que contribuiu com uns cobres na produção, e em troca apareceu na tela por alguns segundos interpretando a si mesmo, numa cena em que dois personagens estão comendo frango frito. Mas a cena realmente preciosa é aquela em que John Carradine aparece como um vendedor de pet shop, conversando com duas gêmeas (Alyce e Rhae Andrece) sobre a vida amorosa dos periquitos. Esta sequência, que se estende por um bom tempo, ganha com certezao Prêmio Nobel de Cena sem Razão de Existir, e é triste que eles tenham conseguido um ator do porte de John Carradine, e não tenham pensado em um papel melhor para encaixá-lo.
Tentando abraçar o universo, mais por burrice do que por pretensão, Hell's Bloody Devils não funciona em nenhum dos gêneros que tenta englobar. A produção é até boa para o tipo de filme que é, mas a completa falta de foco impede todo e qualquer tipo de diversão. Algumas de suas subtramas poderiam gerar filmes melhores, mas do jeito que está é muito pouco de cada coisa, resultando num produto final incapaz de entreter quem quer que seja.
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